>A nova MPB nasceu na última quarta-feira em Porto Alegre. Intitulada ” I Fórum MPB (Música para baixar) “, a série de debates sobre direitos autorais e mídias digitais que até sábado ocupa um auditório na Pontifícia Universidade Católica (PUC) da capital gaúcha tem pouco a ver com a boa, velha, surrada e, na opinião de seus integrantes, ultrapassada Música Popular Brasileira. E, sim, o nome do evento, que também batiza um fórum de discussão nacional, é uma provocação aos velhos baluartes da empoeirada sigla.

– É claro que a gente queria provocar e fazer um trocadilho com a sigla – diz Éverton Rodrigues, programador de computador, consultor em tecnologia livre, integrante do grupo de hip hop e rock Bataclã FC e um dos organizadores do evento. – A verdade é que a música popular brasileira é de uma diversidade gigantesca, mas enquanto alguns aparecem sempre, a grande maioria nunca tem chance. É isso que queremos mudar.

Em sua opinião, o que a sigla MPB representa?

Éverton, de 32 anos, lida com internet desde 1995. Em 14 anos, ao mesmo tempo em que se envolvia com música, ele viu crescerem e se multiplicarem os recursos digitais para baixar e compartilhar música, alvos das editoras e gravadoras musicais, mas que têm sido fundamentais na divulgação de artistas independentes, como o próprio Bataclã, o rapper brasiliense GOG ou o Teatro Mágico do paulistano Fernando Anitelli, outros nomes por trás da nova MPB.

– Com a evolução da internet, tornou-se possível para os músicos gravarem e distribuírem a própria música. Os usuários passaram a baixar música, sem se preocupar com a remuneração dos artistas. E as editoras e gravadoras, netão, sentiram-se lesadas por quem baixa e reagiram, tentando criminalizá-las. A MPB quer reunir todos os vértices desse triângulo e debater o futuro da nossa música – explica.

Baixar música tornou-se um ato, segundo ele, irreversível.

– O (compositor carioca) Leoni criou um blog recentemente chamado ” Música líquida” que sintetiza bem nosso pensamento. Música é como água, é algo fundamental para as pessoas atualmente, ela tem que estar disponível para todo mundo – diz Éverton.

Leoni participou de um acalorado debate na manhã de quinta-feira, ao lado do rapper GOG e do Gerente de Informações Estratégicas e Cultura Digital do Ministério da Cultura, José Murilo. O tema era o projeto substitutivo do deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG) sobre crimes na Internet, que está prestes a ser votado na Câmara dos Deputados e que, na interpretação da nova MPB, visa “criminalizar práticas cotidianas na Internet, tornar suspeitas as redes P2P , impedir a existência de redes abertas, reforçar o DRM que impedirá o livre uso de aparelhos digitais”.

A nova MPB “estreou” dentro da 10ª edição do Fórum Internacional de Software Livre, tido como o maior da área na América Latina. Para Éverton, no novo contexto da música digital, os artistas tenderão a ficar livres dos contratos draconianos que assinavam com as gravadoras no auge da (outra) MPB.

– O projeto de lei não corresponde ao interesse da maioria das pessoas que trabalha com música, vai de encontro apenas aos interesses das gravadoras e editoras. O caminho mais racional é flexibilizar para que os músicos possam fazer a gestão de suas próprias obras. Mas associações como o Ecad, que dizem defender os músicos, só estão interessadas em arrecadar, não em orientá-los ou mesmo formá-los para lidar com as regras do mercado – diz Éverton.

A nova MPB ainda é pequena, ele reconhece. O movimento já despertou a atenção de artistas como o carioca Marcelo Yuka e o gaúcho Nei Lisboa. Éverton aguarda a hora em que algum medalhão da velha MPB irá se juntar a eles. Ele não acredita que Caetano Veloso se mobilizaria pelo tema, mas acha que a qualquer hora pode receber um aceno positivo de Chico Buarque. E presta tributo a Gilberto Gil, o primeiro artista brasileiro de grande porte a se posicionar a favor do software livre.

– Hoje, não vejo os artistas brasileiros debatendo a nova realidade da música de maneira organizada. Estão apenas se debatendo. A MPB veio para tentar fazer isso e vislumbrar um futuro que seja bom para as gravadoras, os usuários e os músicos.

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